No Domingo dia 6, o Papá foi trabalhar e eu fiquei em casa com o Miminho, que estava doente.
A manhã correu muito bem, brincamos imenso e vimos montanhas de livros. Depois o Miminho almoçou e no final comeu fruta, uma maçã.
Ele andava a comer a maçã de pé pela sala e eu estava sentada no sofá, tambem a descascar uma para mim. De repente ouço um som que não identifiquei logo, levanto os olhos para ele e vejo-o engasgado muito aflito! Levanto-me de um salto e corro na sua direcção. Bato-lhe nas costinhas tentando fazer com que o pedaço que o estava a engasgar saisse e... nada. Começo a por-lhe os dedos na boca, a virá-lo e a bater-lhe cada vez com mais força nas costas e... nada. Bati-lhe com tanta força, que temi poder partir-lhe uma costela... Mas só pensava: "com uma costela partida o Miguel sobrevive, engasgado como está é que corre risco de vida". Cada vez o via numa aflição maior, comecei a tentar de tudo e nada funcionava... E a aflição dele cada vez maior...
Eu só pedia a Deus que me valesse e me ajudasse. Sózinha em casa, com o meu filho quase a não conseguir respirar, sem poder ir buscar o telefone para pedir ajuda, porque não podia perder um segundo sequer e tendo a amarga consciência que mesmo que pudesse, não valia a pena porque ninguem ia conseguir chegar a tempo de me ajudar. Só podia contar comigo para salvar o meu filho.
Mas pior que o pior dos pesadelos, o Miguel olhava para mim com um olhar desesperado, a pedir à Mamã que o ajudasse e eu não estava a conseguir valer-lhe...! O tempo passava muito devagar e todos os meus esforços se revelavam em vão. Comecei a vêr o rostinho do meu bebé a passar de vermelho a roxo e de roxo, a roxo pisado, tão escuro que assustava! O seu corpinho começou a desfalecer e os olhos a revirarem-se. Estava a sofucar!
Fiquei em pânico. Quando o vi assim, pensei que o meu pequenino me ia morrer ali nos braços. Nem vos consigo descrever o sentimento...
O medo de perder o meu filho foi tão grande, que me deu uma força animal e desconhecida. Em desespero agarrei nele e enfiei-lhe os meus dedos pela garganta a baixo, tão fundo quanto consegui e não logo à primeira, mas finalmente consegui tirar-lhe os dois bocados de maçã que o estavam a sufocar. Começou a tossir e até pedaços de maça lhe saiam pelo nariz! Quando o ouvi chorar, foi o som mais maravilhoso que alguma vez ouvi.
Peguei-lhe ao colo e enchi-o de beijos e abraços. Estava tão grata, por ele estar bem, por tudo aquilo ter passado.
De repente o Miminho começou com vómitos e eu pensei que ele ia vomitar o almoço, mas não, vomitou sangue. Quando vi o sangue a sair da boquinha dele, fiquei derreada... Partiu-se-me o coração. O meu bebé estava com um ar tão frágil, confuso e assustado, que metia dó! Coitadinho do meu amor!
Liguei para o Papá que não me atendia, enquanto aguardava começou a cair-me em cima o peso de todo este terrível momento. Quando o Papá finalmente me atendeu e eu ouvi a voz dele, comecei a chorar tanto que nem conseguia falar. Nem é preciso dizer que o Papá apanhou um susto tremendo...
Nesse mesmo dia levámo-lo à médica para ser observado, porque ele se queixava que lhe doia a boca. Estava com a garganta toda inflamada, provavelmente das minhas unhas quando lhe enfiei os dedos para tirar a maçã. Contei à médica o que se tinha passado. Ela quando soube que eu tinha passado por tudo aquilo sózinha, do tempo que demorou o engasgo, da minha opção em não perder tempo com o telefone e sim em contar apenas comigo, disse-me -"Parabens. Você foi muito corajosa." Fiquei a olhar para ela, não acho que fui corajosa, acho que se fui alguma coisa, foi mãe.
Posso só dizer-vos que foi o momento mais horrível e assustador de toda a minha vida. Nunca tive tanto medo, como o que senti sózinha naquele Domingo, quando pensei que ficava sem o meu filho.









